Luiz
Carlos Cley
Depoimento de Luis Carlos Cley "Os galãs cantam e dançam aos domingos”...
Você lembra? Em 1970, quando me casei, passei a liderar uma família descrente de tudo, porque eu e minha mulher não ligávamos para nada que tivesse a ver com religião. Meus filhos foram criados completamente sem bases; pior ainda: com um pai bêbado em casa. Como pai, como dono, como cabeça da família, eu só me preocupava em que tudo estivesse ok... “A geladeira tem comida? O colégio está pago? Então não falta nada dentro da minha casa...” Mas eu esquecia que estava faltando o mais importante... Quando meus filhos queriam conversar comigo eu estava bêbado. Eu não era agressivo, mas era um bêbado depressivo. Na verdade eu vivi todas as fases do alcoólatra: a alegria de todos, depois a fase do depressivo, do brabo. Se por um lado jamais encostei a mão nos meus filhos,
por outro nunca lhes dava o carinho que esperavam e mereciam... Na verdade
destruí tudo; joguei tudo fora; perdi o dinheiro; perdi o respeito
de todo o mundo; perdi o rumo...Um amigo meu, me vendo do jeito em que
me encontrava, me convidou a voltar para o Recife e participar de um programa
de televisão. A minha filha Patrícia, a mais velha, estava
com 14 anos, meu filho com 13 e a caçula com 9. Então voltei
para o Recife – ano de 1985 – e fui fazer esse programa que
eles me pediram. Só que em lugar de diminuir na volúpia
da bebida eu aumentei ainda mais, porque para cada amigo de infância
que eu revia, matar a saudade da terrinha era uma desculpa para beber
ainda mais. Então comecei a não me respeitar mais nem como homem, nem como pai, nem como marido, porque o vício do álcool destrói o homem por inteiro. Eu já não olhava mais nos olhos das pessoas porque estava sempre com bafo de bebida. Os meus filhos tinham muita vergonha de mim; comecei a perceber que eles se afastavam do pai, principalmente a Patrícia, uma menina muito inteligente. Eu nunca tinha notícias a respeito de seus estudos, das festas do vestibular. Ela na verdade sentia uma vergonha tremenda de mim. Por sua vez minha mulher foi se afastando cada vez mais; enfim, passei a ser um estranho dentro de casa. Eu só cantava quando os caras diziam: “Vamos levar o Luiz Carlos, porque ele vai relembrar velhos sucessos...” Cantei para muitos políticos, e deles fiquei sem receber um tostão – políticos que hoje são senadores da república. Diziam eles: “Contrata esse bêbado aí... No final a gente diz que ele já recebeu... Tá bêbado mesmo, nem vai notar...”Isso é muito triste! Que vergonha, o fundo de poço a que cheguei! Nem gosto de lembrar, porque essa situação toda me magoa profundamente... E o que aconteceu? A separação. Uma situação
extremamente dolorida, quando fui praticamente expulso da minha casa,
a minha mulher me dizendo: “Eu não quero mais você
aqui!”. Então passei a beber mais do que antes, para esquecer
a separação... Acabei me transformando num homem indesejável
em todos os lugares, porque era um indivíduo sem lar, sem família,
sem Deus; um nômade perambulando pelas ruas. Até que fui
convidado para o aniversário de um amigo meu numa churrascaria.
Lá encontrei um homem que falava ao aniversariante... Ele falava
de Deus dentro de uma casa, o que significava uma família cristã,
uma mulher cristã, um lar cristão. Aliás, tudo aquilo
que ele dizia não passava para mim de pura utopia; era perfeito
demais para a minha realidade. No entanto, quando ele terminou de falar
pedi para ser apresentado, e tentei argumentar com ele. Meu filho se tornou um delinqüente. Chegou a ponto de bater muito num garoto, e levar com ele a camisa toda ensangüentada. Perguntei se ele estava guardando aquilo como troféu... A minha filha mais nova, Camila, com 11 anos de idade, teve a primeira convulsão cerebral e se tornou epilética. A mais velha, Patrícia, se transformou numa inimiga acirrada. Meu nome para ela era um palavrão, porque como conseqüência da minha falta de responsabilidade ela passou a sustentar a casa. O homem me convidou para ir assistir reuniões na comunidade dele aos domingos. Meu filho Júnior que era mais apegado a mim, pedi que ele levasse suas irmãs para aquela reunião. Passei a levar meus filhos lá, pedindo ao Júnior que levasse a mais velha, que não falava mais comigo. Eu levo a Camila e eles vão lá. Quando vi meus filhos lá, fui embora. Então o que fiz depois disso? Vendi meu carro e fui para Maceió, que fica do lado do Recife. Lá fiz um show numa casa chamada casa da seresta, e o cachê que recebi usei para voltar ao Rio de Janeiro, a fim de me encontrar com meu pai, que era comunista, disciplinador, um homem de quem tinha orgulho de ser filho. Estava consciente de que, na forma em que ele iria me encontrar só poderia sofrer muito. Para mim ele não entenderia meu fracasso. Quando cheguei a Niterói eles já moravam no Pita, em cima de uma quitanda. Mamãe me esperou lá embaixo, e me disse que estava orando por mim. Não entendi nada, porque ela nunca fora mulher de oração. “Nós estamos orando, e há muito tempo esperamos por você” – falou. Quando subi aquelas escadas e fui até o quarto onde meu pai estava eu o surpreendi de joelhos, com a Bíblia na mão, orando e chorando muito. Aquilo me deixou estarrecido, pois jamais vira meu pai chorar; ele era um comunista, um homem que nunca falara de Deus. No entanto ali estava de joelhos, chorando e agradecendo a Deus por eu haver entrado naquele quarto. Incrível: ele falava de um Deus em quem nunca acreditara! Ele começou a me falar de Jesus, e me disse que Deus tinha
um plano para a minha vida. Lembrei-me do homem, que me falara sobre isso.
Pensei comigo: ele está no fim da sua vida; depois de muito haver
aprontado está agora procurando ganhar o céu. De repente
eu o ouvi orar de noite com a minha mãe. Comecei a prestar atenção
àquelas orações. Ele colocava o joelho no chão,
algo muito difícil e doloroso, porque tinha numa perna um ferro
de platina. Ao contemplar aquela cena compreendi que algo maravilhoso
real mente acontecera na vida do meu pai. E se acontecera na dele, por
que não poderia acontecer na minha?... Nesse meio tempo o Vladimir, meu irmão mais velho, que mora em Ribeirão Preto – ele sabia que eu estava desempregado –, me ligou dizendo que me conseguira um emprego numa rádio local. Nessa época recebi um telefonema de Recife – passados oito anos. Até ali eu só sabia dos meus filhos pelas pessoas que me contavam as novidades, nunca por eles mesmos: “O Júnior está trabalhando em tal lugar; a Patrícia é advogada; a sua filha Camila vai muito bem...” Foi quando ligou o Júnior e disse: “Papai, eu queria que o senhor viesse cantar no meu casamento. Vou lhe mandar uma fita; o senhor aprende as músicas e canta para mim”. E antes de desligar o telefone ele me fez o grande pedido; é aí que eu digo que a ficha caiu... Meu filho, que eu deixara praticamente rebelde, violento, brigando muito, me liga e pede: “Pai, eu queria que o senhor me desse o maior presente para o meu casamento: não beba!” Meu filho ia me apresentar a seus amigos, na sociedade pernambucana. Ele ia se casar na mesma igreja em que o Pelé casou com a Assíria. Pois era nessa igreja que eu iria cantar para meu filho. No momento em que estou cantando, quando o Júnior ia entrando
na igreja, iam à frente aPatrícia e a Camila, A Camila fez
oração segurando na minha mão. Quer saber o que aconteceu comigo? Eu nunca mais bebi! Deus restaurou a minha vida. Meu filho hoje é um homem de negócio, trabalha para uma grande empresa no Rio de Janeiro; a Camila me deu um abraço, e me revelou que a partir do dia em que recebera a Jesus nunca mais tivera crises de epilepsia; e a Patrícia, que me odiava, se tornou uma grande amiga. Foi nesse dia que conheci meu neto; foi também nesse dia que comecei a viver. Hoje temos um relacionamento formidável, e todos estão comigo. Parei de beber, parei de sofrer, e encontrei o caminho do verdadeiro sucesso. Jesus Cristo é a minha salvação. Luiz Carlos Clay é cantor e sócio do Capítulo
095 da Adhonep, em São Gonçalo – RJ |