Luiz Carlos Cley

Depoimento de Luis Carlos Cley

"Os galãs cantam e dançam aos domingos”... Você lembra?

Quando a CBS me contratou, gravei meu primeiro compacto. Você se lembra? Aquele pequeno disco de vinil, que vinha com apenas duas faixas, uma de cada lado. O sucesso “Uma casa sobre o mundo”, versão de uma música italiana, foi um estouro no país inteiro. Naquela época era assim. Depois do Festival de San Remo, que acontecia na Itália, músicos e cantores rapidamente preparavam boas versões e lançavam aqui no Brasil. O próprio Roberto Carlos participou do festival e saiu vitorioso. Em razão disso, todas as músicas de destaque eram escolhidas pelos cantores românticos brasileiros.
Passei para meu compacto duplo com a bela música “Praia”, gravada pelo Aguinaldo Raiol em São Paulo e por mim no Rio de Janeiro. Só que eu tinha uma grande vantagem sobre o Aguinaldo: ele era apavorado com avião. Então eu viajava pelos estados e pelas cidades. E ainda por cima - estava na “Vitrine Artística do Brasil”: a noite carioca. Foi aí que participei do programa Rio Ritz, cujo produtor era o Jair Traumaturgo. Ele me colocou na parada, me lançou na Jovem Guarda. Subi como um foguete, cantando e me apresentando todas as semanas. Foi um sucesso. Fui convidado para estar no programa da Jovem Guarda. Quando Roberto vem parar TV Rio, e aqui o programa passou a ser “Alta tensão”, por causa da minha voz forte.Foi maravilhoso. Minhas músicas saíam no LP da CBS chamado “As 14 Mais...” Após meu segundo e terceiro discos eu já estava com a minha família toda no Rio. Até a minha irmã Kátia estourou no Brasil com a música “Bilhetinho Apaixonado”, do Othon Russo, produtor da CBS.Foi quando marquei meu primeiro show ao vivo, para a ABB. Tudo programado, certo, muito bem preparado, com orquestra e tudo mais.Aquele show seria decisivo para a continuidade da minha carreira. Eu estava muito nervoso, inquieto, com medo, preocupado com tudo. Minha apreensão era visível. Todos percebiam que eu estava realmente muito ansioso. Até que alguém me deu um conselho: “Rapaz, toma uma dose de uísque! Você precisa relaxar...”Já que eu não tinha nada a perder mesmo... bebi a primeira dose, bebi a segunda... Demorou a começar... Bebi a terceira dose, e bebi mais uma... Fiquei alegre, muito alegre mesmo, simpático, descontraído. Todo o meu medo e minha inibição sumiram como por encanto... – um tremendo milagre! Acredito que por isso fiz o melhor show da minha vida, um show que foi reprisado várias vezes! É claro que o sucesso não correu por conta da bebida. Na verdade eu tinha mesmo era talento. Só que era extremamente inseguro. Por isso atribuí o crédito da minha boa perfórmance à bebida e seus efeitos.o segundo show eu já levei minha própria garrafa de uísque, e no terceiro também... E assim continuou acontecendo, por mais de 26 anos de carreira...Em 1969 fui contratado pelo apresentador de TV Sílvio Santos. Havia um apresentador chamado Celso Teixeira, muito amigo do Sílvio Santos, que foi quem me levou a ele. Era como se eu fosse um lançamento nacional.
Quando a CBS me contratou, gravei meu primeiro compacto. Você se lembra? Aquele pequeno disco de vinil, que vinha com apenas duas faixas, uma de cada lado. O sucesso “Uma casa sobre o mundo”, versão de uma música italiana, foi um estouro no país inteiro. Naquela época era assim. Depois do Festival de San Remo, que acontecia na Itália, músicos e cantores rapidamente preparavam boas versões e lançavam aqui no Brasil. O próprio Roberto Carlos participou do festival e saiu vitorioso. Em razão disso, todas as músicas de destaque eram escolhidas pelos cantores românticos brasileiros.O Sílvio Santos tinha programas na Globo e na Tupi. Ele comprava o horário todo de domingo na Globo, e o de quinta na Tupi. Pois eu fui contratado para fazer um programa chamado “Os galãs cantam e dançam aos domingos”. Era um quadro no programa do Sílvio no domingo. Ele contratou Antônio Marcos, Wanderley Cardoso, Luiz Carlos Clay, Paulo Sérgio e outros artistas.Quando cheguei a São Paulo encontrei amigos contratados pelo Sílvio Santos! Que beleza! Eles sempre gostaram também de tomar uns uísques...Foi aí que comecei a beber muito, e beber pra valer...Era uma turma de cantores que se tornaram amigos, e sempre eles reuniam para bates-papos e tomar umas doses.Foi dessa maneira que durante muito tempo fiz parte do movimento musical, histórico no Brasil, chamado Jovem Guarda. Nele fiz aliás muito sucesso.Eram muitos shows, muito dinheiro, muitas viagens, muita bebida... O tempo corria, e eu nem me dava conta de que estava perdendo o que realmente era importante. Eu virei artista em razão dos problemas familiares. Parece incrível que faça tal afirmação, mas ela é verdadeira. Eu sou do Recife; meu pai era carioca e conheceu minha mãe lá por ocasião da parada do navio que ia para a Itália lutar na Segunda Guerra. Quando o comandante da base aérea da Aeronáutica desceu, perguntou quem tinha uma especialidade.Ele então deu um passo à frente, porque era aerofotogometrista (Ou seja, fotografava o Brasil do avião, a fim de fazer os mapas). Por conta disso ele casou e constituiu uma família com nove filhos, dos quais dois morreram. O curioso é que todos eles receberam nome de líderes comunistas. Papai, além de militar, vivendo no Rio de Janeiro, era comunista e servia a esse partido. Ele esteve preso com Luiz Carlos Prestes, no Rio, e quando preso prometeu que um dia iria dar este nome a um filho, em homenagem a Luiz Carlos Prestes. Pois esse filho sou eu. Os outros são Vladimir Lenini, Katia Cilene, Olga Benário – nome da mulher do Luiz Carlos Prestes –, Marla e Nina Gabriela, todos estes nomes de líderes comunistas no mundo.Fiquei famoso, ganhei muito dinheiro, e achava que conseguia arrebentar nos shows e discos por conta do “velho e bom uísque”. Eu pensava: “É por causa dele que tenho coragem...” Que absurdo! Pobre de mim! ... E fui me afundando cada vez mais na bebida. Porque se no início eu bebia antes, passei a beber também durante e depois... E só pensando em me divertir... Em ficar com os amigos... Em relaxar... Em esquecer... Em enfrentar os problemas... E fugir deles... Até que me tornei um alcoólatra com todas as letras!Casei em 1970. Vendi na época 600 mil discos, entre todos que gravei. Participei do Festival Internacional da Canção, no lançamento de Mílton Nascimento. Ele participava com Morro Velho e Travessia, e eu com a música Tudo é teu. No entanto o festival realmente foi de Mílton Nascimento.
Em São Paulo conheci outra coisa que me atraía muito: músicas italianas. Foi quando vim a ter contato com um público italiano. E como eu sempre cantara músicas românticas, as músicas italianas me chamavam muito a atenção. Então aprendi italiano, e o Sílvio Santos me chamava para cantar os sucessos na época em italiano. Aí comecei a esquecer a minha carreira, e as músicas que gravava. E passei a defender num programa que tinha a maior audiência no Brasil músicas dos outros. Isso se transformou numa coisa muito desagradável para a gravadora, e nessa época os shows começaram a diminuir; afinal, o contratante não queria só o Luiz Carlos Clay, queria “Os Galãs Cantam”.É como o movimento hoje dos “Amigos”, todos eles fazendo parte da música sertaneja...Na época em que eu assinei contrato com o Silvio, a própria CBS me chamou a atenção: “Veja bem o que você vai fazer...” Mas eu não ouvi; não lhes dei a menor atenção...Achava que tinha razão.Foi aí que comecei a beber pela manhã, indo até a noite. Aliás, todos os meus amigos mais chegados também bebiam. Nós nos encontrávamos num barzinho da dona Veridiana, freqüentado apenas pelos artistas que bebiam. Muitos dos meus amigos faleceram por causa da bebida. Eu cheguei a ter coma alcoólico.

Em 1970, quando me casei, passei a liderar uma família descrente de tudo, porque eu e minha mulher não ligávamos para nada que tivesse a ver com religião. Meus filhos foram criados completamente sem bases; pior ainda: com um pai bêbado em casa. Como pai, como dono, como cabeça da família, eu só me preocupava em que tudo estivesse ok... “A geladeira tem comida? O colégio está pago? Então não falta nada dentro da minha casa...” Mas eu esquecia que estava faltando o mais importante...

Quando meus filhos queriam conversar comigo eu estava bêbado. Eu não era agressivo, mas era um bêbado depressivo. Na verdade eu vivi todas as fases do alcoólatra: a alegria de todos, depois a fase do depressivo, do brabo.

Se por um lado jamais encostei a mão nos meus filhos, por outro nunca lhes dava o carinho que esperavam e mereciam... Na verdade destruí tudo; joguei tudo fora; perdi o dinheiro; perdi o respeito de todo o mundo; perdi o rumo...Um amigo meu, me vendo do jeito em que me encontrava, me convidou a voltar para o Recife e participar de um programa de televisão. A minha filha Patrícia, a mais velha, estava com 14 anos, meu filho com 13 e a caçula com 9. Então voltei para o Recife – ano de 1985 – e fui fazer esse programa que eles me pediram. Só que em lugar de diminuir na volúpia da bebida eu aumentei ainda mais, porque para cada amigo de infância que eu revia, matar a saudade da terrinha era uma desculpa para beber ainda mais.

Então comecei a não me respeitar mais nem como homem, nem como pai, nem como marido, porque o vício do álcool destrói o homem por inteiro.

Eu já não olhava mais nos olhos das pessoas porque estava sempre com bafo de bebida. Os meus filhos tinham muita vergonha de mim; comecei a perceber que eles se afastavam do pai, principalmente a Patrícia, uma menina muito inteligente. Eu nunca tinha notícias a respeito de seus estudos, das festas do vestibular. Ela na verdade sentia uma vergonha tremenda de mim. Por sua vez minha mulher foi se afastando cada vez mais; enfim, passei a ser um estranho dentro de casa. Eu só cantava quando os caras diziam: “Vamos levar o Luiz Carlos, porque ele vai relembrar velhos sucessos...”

Cantei para muitos políticos, e deles fiquei sem receber um tostão – políticos que hoje são senadores da república. Diziam eles: “Contrata esse bêbado aí... No final a gente diz que ele já recebeu... Tá bêbado mesmo, nem vai notar...”Isso é muito triste! Que vergonha, o fundo de poço a que cheguei! Nem gosto de lembrar, porque essa situação toda me magoa profundamente...

E o que aconteceu? A separação. Uma situação extremamente dolorida, quando fui praticamente expulso da minha casa, a minha mulher me dizendo: “Eu não quero mais você aqui!”. Então passei a beber mais do que antes, para esquecer a separação... Acabei me transformando num homem indesejável em todos os lugares, porque era um indivíduo sem lar, sem família, sem Deus; um nômade perambulando pelas ruas. Até que fui convidado para o aniversário de um amigo meu numa churrascaria. Lá encontrei um homem que falava ao aniversariante... Ele falava de Deus dentro de uma casa, o que significava uma família cristã, uma mulher cristã, um lar cristão. Aliás, tudo aquilo que ele dizia não passava para mim de pura utopia; era perfeito demais para a minha realidade. No entanto, quando ele terminou de falar pedi para ser apresentado, e tentei argumentar com ele.

Conversando comigo, aquele homem disse: “Deus tem um plano para a sua vida...” “Plano? Estou todo quebrado...” Minha vida estava realmente toda destruída... O sucesso? A jovem guarda? Tudo fazia parte do passado...

Meu filho se tornou um delinqüente. Chegou a ponto de bater muito num garoto, e levar com ele a camisa toda ensangüentada. Perguntei se ele estava guardando aquilo como troféu... A minha filha mais nova, Camila, com 11 anos de idade, teve a primeira convulsão cerebral e se tornou epilética. A mais velha, Patrícia, se transformou numa inimiga acirrada. Meu nome para ela era um palavrão, porque como conseqüência da minha falta de responsabilidade ela passou a sustentar a casa.

O homem me convidou para ir assistir reuniões na comunidade dele aos domingos. Meu filho Júnior que era mais apegado a mim, pedi que ele levasse suas irmãs para aquela reunião. Passei a levar meus filhos lá, pedindo ao Júnior que levasse a mais velha, que não falava mais comigo. Eu levo a Camila e eles vão lá. Quando vi meus filhos lá, fui embora. Então o que fiz depois disso? Vendi meu carro e fui para Maceió, que fica do lado do Recife. Lá fiz um show numa casa chamada casa da seresta, e o cachê que recebi usei para voltar ao Rio de Janeiro, a fim de me encontrar com meu pai, que era comunista, disciplinador, um homem de quem tinha orgulho de ser filho. Estava consciente de que, na forma em que ele iria me encontrar só poderia sofrer muito. Para mim ele não entenderia meu fracasso.

Quando cheguei a Niterói eles já moravam no Pita, em cima de uma quitanda. Mamãe me esperou lá embaixo, e me disse que estava orando por mim. Não entendi nada, porque ela nunca fora mulher de oração. “Nós estamos orando, e há muito tempo esperamos por você” – falou.

Quando subi aquelas escadas e fui até o quarto onde meu pai estava eu o surpreendi de joelhos, com a Bíblia na mão, orando e chorando muito. Aquilo me deixou estarrecido, pois jamais vira meu pai chorar; ele era um comunista, um homem que nunca falara de Deus. No entanto ali estava de joelhos, chorando e agradecendo a Deus por eu haver entrado naquele quarto. Incrível: ele falava de um Deus em quem nunca acreditara!

Ele começou a me falar de Jesus, e me disse que Deus tinha um plano para a minha vida. Lembrei-me do homem, que me falara sobre isso. Pensei comigo: ele está no fim da sua vida; depois de muito haver aprontado está agora procurando ganhar o céu. De repente eu o ouvi orar de noite com a minha mãe. Comecei a prestar atenção àquelas orações. Ele colocava o joelho no chão, algo muito difícil e doloroso, porque tinha numa perna um ferro de platina. Ao contemplar aquela cena compreendi que algo maravilhoso real mente acontecera na vida do meu pai. E se acontecera na dele, por que não poderia acontecer na minha?...
Deus colocou na minha vida a chance de ser feliz. Tentei recomeçar tudo, pois fora realmente impactado pelas circunstâncias que de um momento para outro me surpreenderam de uma forma jamais imaginada, em toda a minha vida. Conheci a Raquel, uma mulher séria e cristã, que começou a me falar de Jesus e a orar junto com meu pai.

Nesse meio tempo o Vladimir, meu irmão mais velho, que mora em Ribeirão Preto – ele sabia que eu estava desempregado –, me ligou dizendo que me conseguira um emprego numa rádio local.

Nessa época recebi um telefonema de Recife – passados oito anos. Até ali eu só sabia dos meus filhos pelas pessoas que me contavam as novidades, nunca por eles mesmos: “O Júnior está trabalhando em tal lugar; a Patrícia é advogada; a sua filha Camila vai muito bem...”

Foi quando ligou o Júnior e disse: “Papai, eu queria que o senhor viesse cantar no meu casamento. Vou lhe mandar uma fita; o senhor aprende as músicas e canta para mim”. E antes de desligar o telefone ele me fez o grande pedido; é aí que eu digo que a ficha caiu...

Meu filho, que eu deixara praticamente rebelde, violento, brigando muito, me liga e pede: “Pai, eu queria que o senhor me desse o maior presente para o meu casamento: não beba!”

Meu filho ia me apresentar a seus amigos, na sociedade pernambucana. Ele ia se casar na mesma igreja em que o Pelé casou com a Assíria. Pois era nessa igreja que eu iria cantar para meu filho.

No momento em que estou cantando, quando o Júnior ia entrando na igreja, iam à frente aPatrícia e a Camila, A Camila fez oração segurando na minha mão.
Meu irmão Vadimir também se tornou cristão. Se meus filhos eram cristãos, por que eu não tinha esse Jesus? Por que a minha vida era daquele jeito, tão desgovernada e atribulada? Será que eu queria mesmo uma nova chance? Queria recomeçar? Pois na hora em que estava cantando eu entreguei a minha vida a Deus, a Jesus Cristo.

Quer saber o que aconteceu comigo? Eu nunca mais bebi!

Deus restaurou a minha vida. Meu filho hoje é um homem de negócio, trabalha para uma grande empresa no Rio de Janeiro; a Camila me deu um abraço, e me revelou que a partir do dia em que recebera a Jesus nunca mais tivera crises de epilepsia; e a Patrícia, que me odiava, se tornou uma grande amiga. Foi nesse dia que conheci meu neto; foi também nesse dia que comecei a viver.

Hoje temos um relacionamento formidável, e todos estão comigo.

Parei de beber, parei de sofrer, e encontrei o caminho do verdadeiro sucesso. Jesus Cristo é a minha salvação.

Luiz Carlos Clay é cantor e sócio do Capítulo 095 da Adhonep, em São Gonçalo – RJ

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